22.258 razões para continuar
Artigo de opinião de Sofia Teles, Diretora de Futebol Feminino da Federação Portuguesa de Futebol
No último domingo, o Estádio Nacional recebeu mais uma final da Taça de Portugal Feminina. Desta feita, SL Benfica e FC Porto encontraram-se pela primeira vez na história e chegaram ao jogo decisivo da Prova Rainha com aura de vencedores: além do exemplar percurso que culminou no Jamor, conquistaram também os respetivos campeonatos nacionais.
Antes do pontapé de saída, a Federação Portuguesa de Futebol organizou um dia inteiramente dedicado à promoção do futebol feminino e da atividade física. Logo pela manhã, a Cidade do Futebol tornou-se o palco para a realização da já indispensável Festa do Futebol Feminino, que juntou mais de 1.000 jogadoras dos escalões sub-11 e sub-13, num dia repleto de jogos, música e diversão que tão cedo não vão esquecer. No final do dia todas elas tiveram a oportunidade de ver a grande final do Jamor, com muitas das suas referências em campo.
A atmosfera única do Jamor, que mais uma vez se engalanou para receber os adeptos de ambos os clubes, propiciou novamente o habitual convívio salutar no exterior do estádio, com os adeptos de ambos os clubes a misturarem-se num ambiente festivo e seguro. Lá dentro estiveram 22.258 adeptos, que apoiaram e celebraram as suas equipas, com fair-play e respeito, numa verdadeira festa do futebol. Foi a maior assistência numa final de Taça de Portugal Feminina até à data.
É, sem dúvida, um marco que merece registo e celebração, constante lembrete da importância de que estes momentos se tornem cada vez mais habituais e que deixe de se tornar premente celebrá-los. Cá estaremos para os assinalar, sabendo que são sempre mérito de muita gente que merece ser reconhecida.
Para assegurar a continuidade desta consistência, temos que criar, todos juntos, um ecossistema que suporte o futebol feminino de forma cada vez mais sólida e sustentada. Um trabalho conjunto que requer a participação de todos: Governo, Federação, Associações Distritais e Regionais, Sócios de Classe, Clubes, parceiros, patrocinadores, media…
Um ecossistema que está em evolução e que se reforça todos os dias através, também, de mudanças de mentalidade. Esse desenvolvimento nota-se na forma como o futebol feminino é visto e tratado, sendo esta final da Taça de Portugal feminina um dos bons exemplos.
Hoje, os clubes investem porque veem valor. Os patrocinadores procuram as federações, as ligas, os clubes e as atletas. E as próprias jogadoras exigem o que deve tornar-se natural: melhores condições, maior profissionalismo, estruturas que lhes permitam ter uma carreira - não apenas uma paixão.
Em Portugal, estamos nessa transição. A Liga BPI tem crescido em qualidade e competitividade. Criámos uma Liga Sub-17 feminina porque sentíamos que faltava um patamar fundamental no nosso percurso de formação. E continuamos a trabalhar para que mais e mais clubes abram as portas às raparigas, não porque é obrigatório ou a coisa certa a fazer, mas porque percebem que é uma oportunidade.
Temos, no entanto, um longo caminho a percorrer. Precisamos de mais adeptas e adeptos a irem regularmente aos jogos. Precisamos de mais visibilidade para as nossas jogadoras, clubes e competições. Precisamos de mais raparigas que querem e podem jogar futebol. Precisamos de mais treinadoras, médicas, enfermeiras, fisioterapeutas, jornalistas. Precisamos de mais dirigentes. Precisamos de mais clubes com as portas abertas às raparigas.
Estes são os verdadeiros testes. Não basta termos recordes de assistência nas grandes finais, apesar de serem importantes. São os jogos ao fim-de-semana, são os adeptos nas bancadas, são os clubes que acreditam que vale a pena investir, são as oportunidades para mais raparigas e mulheres.
Sabemos a responsabilidade que o futebol tem, através do impacto que cria, e queremos provocar essa mudança estrutural. Contamos com todos.