Hamit Altıntop sobre o Ramadão e o futebol profissional: “É um estilo de vida”
O Ramadão é um período de reflexão, gratidão e disciplina. Permite abrandar o ritmo, reconectar-nos com os nossos valores e encontrar equilíbrio. Sempre foi algo muito importante na minha vida e na da minha família. Ao mesmo tempo, vejo muitos paralelismos entre o Ramadão e o desporto profissional, porque ambos exigem um forte autocontrolo, compromisso e força mental.
Durante a minha carreira como jogador, observei o Ramadão. A única exceção eram os dias de jogo, porque sentia a responsabilidade perante o meu clube e os meus colegas de equipa de apresentar o meu melhor nível. Nesses casos, compensava posteriormente os dias de jejum em falta, como a nossa fé permite. É uma decisão pessoal e, se um jogador não se sentir fisicamente capaz de jejuar num determinado dia, existe flexibilidade para o cumprir mais tarde. Nos treinos, no entanto, jejuava sempre, o que exigia uma gestão cuidada do sono, da alimentação e da recuperação para manter o rendimento.
O maior desafio é muitas vezes a alteração dos hábitos diários. Durante 11 meses por ano, pode começar-se o dia com café, chá ou um batido, e de repente, durante o Ramadão, essas rotinas deixam de existir. Isto exige uma adaptação tanto física como mental. Recordo-me particularmente de um verão em que tínhamos dois treinos por dia, um às 10h00 e outro às 17h00, com temperaturas próximas dos 35 graus. No final do dia, antes de quebrar o jejum por volta das 20h30, tinha perdido quase quatro ou cinco quilos. A hidratação é o maior desafio. Mas, se estivermos bem preparados, saudáveis e conhecermos o nosso corpo, é algo que se consegue gerir. Experiências como esta tornam-nos mais fortes. Ensinam disciplina e mostram que, se conseguimos lidar com isto, conseguimos lidar com muitos outros desafios na vida.
O apoio e a comunicação por parte dos treinadores e dos clubes também são essenciais. Quando os clubes respeitam e apoiam os jogadores que estão a jejuar, cria-se um clima de confiança e motivação. Os jogadores retribuem esse respeito através do seu compromisso e do seu rendimento. Temos visto bons exemplos disso no futebol. Jürgen Klopp, por exemplo, falou de forma muito positiva sobre Sadio Mané e Mohamed Salah, destacando como a sua fé, incluindo o jejum e a oração, contribuíram para a sua disciplina, atitude e profissionalismo. Ambos foram jogadores de rendimento excecional e verdadeiros exemplos a seguir.
O Ramadão é mais do que apenas jejuar. É um estilo de vida, uma crença e um compromisso profundamente pessoal. Para muitos jogadores, não é uma limitação, mas sim uma fonte de força mental e disciplina. É um período que nos enche de orgulho, que nos ajuda a crescer e que sempre valorizei e vivi com satisfação.