Notícias 04 Mai 2026

Dia 1 do PFS Academy: Veja aqui os principais destaques

Dia 1 do PFS Academy: Veja aqui os principais destaques

Conferência científica internacional decorre, até amanhã, na Cidade do Futebol

A Cidade do Futebol acolhe, esta segunda-feira e amanhã, a conferência científica PFS Academy – Science in Football. Na FPF Arena Portugal, especialistas nacionais e internacionais entram em campo para dois dias dedicados à ciência e ao conhecimento aplicados ao futebol. Promovido pela FPF Academy, o evento integra o universo de eventos do Portugal Football Summit, a principal plataforma internacional de discussão da indústria do futebol.

Entre os 200 participantes, há inscritos de 22 nacionalidades para acompanhar as conferências e mais de cinco dezenas de comunicações livres.

Sob o tema “The Team Behind the Team: Science, Training and Performance”, o programa deste PFS Academy aborda áreas-chave como metodologia de treino, análise de jogo, performance, medicina desportiva, psicologia, nutrição e tecnologia aplicada ao futebol, refletindo a crescente importância de uma abordagem multidisciplinar no rendimento desportivo.

Pedro Proença, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), e José Gomes Mendes, Diretor-Geral da FPF Academy, deram o pontapé de saída para dois dias intensos de discussão.

José Gomes Mendes: "Ciência está a mudar o jogo"

Na sessão de abertura, que partilhou com Pedro Proença, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, José Gomes Mendes, Diretor-Geral da FPF Academy, lembrou que, "hoje, a ciência está em todo o lado, no jogo". "Está presente em todas as dimensões da performance. Por trás de cada equipa em campo, há outra equipa — uma equipa multidisciplinar — que utiliza o conhecimento para melhorar o jogo" e essa "vasta gama de tópicos" será abordada, durante dois dias, nesta conferência científica.

"Temas como a gestão da carga de trabalho, a análise de jogos, o scouting, a nutrição, a psicologia e a reabilitação, entre outros — tudo baseado em dados concretos", serão abordados por "especialistas de organizações como a FIFA, o Liverpool FC, o Tottenham e alguns dos principais clubes e universidades portugueses", com "investigadores e profissionais de renome que desenvolvem e aplicam conhecimentos no âmbito da FPF", apresentou, orgulhodo da "ligação real entre a teoria e a prática" proporcionada pela FPF Academy: "Para quem trabalha no futebol e procura uma vantagem competitiva sustentável", o PFS Academy - Science in Football representa uma "oportunidade para compreender como a ciência está a mudar o jogo a partir do interior".

A Equipa por Trás da Equipa

Pedro Mil-Homens (Technical Lead of the FIFA Academy Systems Project)

Pedro Mil-Homens destacou o papel determinante das estruturas invisíveis que sustentam o rendimento no futebol moderno. Numa abordagem centrada no impacto coletivo, sublinhou que “os clubes não ganham porque têm um génio, ganham porque menos coisas correm mal”, evidenciando a importância de sistemas integrados que envolvem análise, ciência, preparação física e apoio ao jogador.

Foi ainda enfatizada a necessidade de especialização e relevância na tomada de decisão, defendendo que o verdadeiro valor dos profissionais está no impacto que geram: “o trabalho não é produzir relatórios, é filtrar, traduzir e tornar a informação utilizável”. Num contexto cada vez mais exigente, o painel reforçou a valorização dos elementos que, longe da linha lateral, são decisivos na performance e consistência das equipas.

Conferência 1 | O papel do Treinador-Adjunto: uma reflexão sobre as diferenças e semelhanças entre a Seleção Nacional e o Futebol de Clubes

Hugo Pereira (FIFA High Performance Specialist)

Hugo Pereira destacou que o papel do treinador-adjunto no futebol de elite é distinto e ainda pouco definido, exigindo maior clareza conceptual. Com base no International Sport Coaching Framework, sublinhou que, embora a lógica do treino seja transversal a clubes e seleções, o contexto altera profundamente a função: no clube, o trabalho é contínuo, com maior controlo e proximidade de ajustar processos; na seleção, é episódico, exigindo alinhamento rápido, coordenação e eficiência em janelas temporais reduzidas.

Ao longo da reflexão, evidenciou que o treinador-adjunto atua como extensão do treinador principal, complemento técnico e ponte entre diferentes intervenientes. Num ambiente cada vez mais exigente, o seu valor reside na capacidade de adaptação ao contexto, na tradução da estratégia em ação e na gestão da complexidade, sendo determinante para garantir coerência, funcionamento e rendimento coletivo.

Conferência 2 | Otimização dos Percursos de Desenvolvimento dos Jogadores: Princípios Científicos e Abordagens Práticas no Apoio ao Treinador

Ricardo Duarte (FPF)

Ricardo Duarte abordou a forma como o ecossistema do futebol português sustenta, de forma consistente, o sucesso das seleções jovens, destacando a forte articulação entre clubes e federação. Apesar do papel determinante dos grandes clubes no desenvolvimento final, sublinhou que o talento emerge de uma base territorial ampla, alimentada por pequenos clubes e contextos locais. Evidenciou ainda a especificidade metodológica portuguesa, centrada no jogo e na tomada de decisão, como um dos fatores que pode explicar a elevada eficiência na formação de jogadores, mesmo com um universo de recrutamento reduzido.

Num contexto de crescente competitividade internacional, foi enfatizada a necessidade de evolução contínua dos processos, evitando a estagnação. Nesse sentido, destacou a reorganização do percurso do jogador nas seleções, distinguindo uma fase de descoberta, orientada para o potencial, e uma fase de performance, focada na otimização dos jogadores-chave. Paralelamente, reforçou a importância de um modelo colaborativo entre equipas técnicas e especialistas, promovendo maior alinhamento, partilha de conhecimento e consistência no desenvolvimento do talento ao longo das diferentes etapas.

Conferência 3 | Exigências neuromusculares do futebol: impacto fisiológico, resposta e adaptação – a interação entre estímulos de ginásio e de campo. Um equilíbrio delicado ou uma zona de risco assumida?

António Ascensão (University of Porto)

António Ascensão analisou as exigências neuromusculares do futebol, destacando a interação complexa entre estímulos de treino no campo e no ginásio. Com base em evidência científica, evidenciou o papel central das ações excêntricas, como desacelerações e mudanças de direção, na produção de tensão muscular e dano estrutural, elementos essenciais para a adaptação. Neste contexto, sublinhou a importância de gerir cuidadosamente os processos fisiológicos associados, referindo que “temos de encontrar a dose certa”, alertando para o risco de intervenções que possam comprometer respostas naturais como a inflamação ou os mecanismos redox.

Do ponto de vista aplicado, destacou a dificuldade em quantificar e individualizar a carga de treino, defendendo uma abordagem mais integrada que considere as respostas individuais dos jogadores. Apontou o potencial de biomarcadores, como os SNPs e os microRNAs, para compreender diferenças na adaptação e no risco de lesão, abrindo caminho a modelos mais personalizados. Em síntese, reforçou que o grande desafio passa por equilibrar estímulo e risco, garantindo desenvolvimento físico sustentado num contexto de elevada exigência competitiva.

Conferência 4 | Otimização do processo de treino: determinação do perfil físico individual e coletivo através da avaliação de protocolos em contexto de campo

Eduardo Oliveira (Polytechnic Institute of Viana do Castelo)

No painel científico sobre a otimização do processo de treino, Eduardo Oliveira destacou que o futebol moderno depende cada vez mais de abordagens orientadas por dados para compreender o perfil físico individual e coletivo dos atletas. Salientou que o desempenho não é definido por um único indicador, mas pela interação entre capacidade aeróbia, força, velocidade e a capacidade de repetir esforços de alta intensidade. Neste contexto, os protocolos de avaliação em campo foram apresentados como ferramentas essenciais para orientar o treino, sempre com o objetivo de melhorar o rendimento e reduzir o risco de lesão.

Sublinhou ainda a importância da individualização, referindo que jogadores com desempenhos semelhantes podem responder de forma muito diferente ao mesmo estímulo de treino. Ao combinar avaliações metabólicas e mecânicas, incluindo o perfil de sprint, análise da aceleração e desaceleração e monitorização submáxima, é possível desenvolver estratégias de treino mais precisas e eficientes. Em conclusão, Eduardo Oliveira reforçou que a transição de métricas simples para um perfil integrado de desempenho é fundamental para otimizar o processo de treino e alcançar níveis elevados de performance de forma consistente.

Conferência 5 | Observação Moderna em Contextos de Futebol de Elite

João Ferreira (Tottenham Hotspur FC)

João Ferreira refletiu sobre os desafios do scouting no futebol de elite, destacando a necessidade de compreender profundamente o contexto de cada clube antes de definir qualquer estratégia. Sublinhou que não existe uma solução única ou modelo universal, defendendo uma abordagem baseada em questionamento constante, onde a identificação clara do perfil do jogador, alinhado com a filosofia e modelo de jogo, é determinante. Como referiu, “uma mesma pergunta pode ter várias respostas”, reforçando a ideia de que o scouting deve ser adaptável, contextual e orientado para a tomada de decisão informada.

Ao longo da intervenção, enfatizou a complementaridade entre abordagens tradicionais e data-driven, argumentando que evidência e observação devem trabalhar em conjunto e não em competição. Num ambiente marcado por incerteza e mudança constante, destacou ainda a importância de gerir risco, antecipar cenários de mercado e manter uma visão simultaneamente estratégica e operacional. Nesse sentido, reforçou que o verdadeiro valor de um departamento de scouting reside na capacidade de integrar informação, filtrar ruído e responder com agilidade, garantindo soluções coerentes num processo inevitavelmente imperfeito.

Conferência 6 | Como é que a ciência orienta o treino dos guarda-redes?

Markel Perez-Arroniz (University of the Basque Country)

No painel científico sobre “How does science guide us in training our goalkeepers?”, Markel Perez-Arroniz destacou a necessidade de aproximar a investigação da prática no treino de guarda redes, referindo que ainda existe uma desconexão entre o conhecimento científico e o trabalho diário dos treinadores. Com base em evidência recente, explicou que os guarda redes apresentam características físicas e funcionais específicas, como elevada explosividade, maior amplitude de movimento, especialmente ao nível da anca, e exigências particulares de jogo, que devem orientar o processo de treino. A análise de situações reais de jogo evidenciou ainda a importância de preparar ações rápidas e intuitivas, com tempo de reação reduzido, reforçando o papel fundamental da técnica e da tomada de decisão.

Sublinhou também a importância de uma abordagem individualizada e de longo prazo no desenvolvimento dos guarda redes, desde a identificação de talento até ao alto rendimento. O treino deve evoluir de contextos mais analíticos para situações cada vez mais representativas do jogo, integrando componentes físicas, técnicas, cognitivas e psicológicas. Além disso, destacou a necessidade de alinhar as cargas de treino com as exigências competitivas, incluindo trabalho compensatório para guarda redes não titulares, e de utilizar avaliações específicas para monitorizar o desempenho. Em síntese, Markel Perez Arroniz reforçou que a ciência deve orientar um processo de treino mais contextualizado, progressivo e eficaz, alinhado com as reais exigências do jogo.

Conferência 7 | Gestão da carga de treino: da investigação à prática

Torstein Dalen-Lorentsen (SINTEF)

Torstein Dalen-Lorentsen apresentou uma reflexão sobre a gestão da carga de treino, enfatizando que o principal objetivo passa por encontrar o nível ótimo de carga para cada jogador, rejeitando abordagens uniformes. Através de exemplos práticos, demonstrou que diferentes perfis de atletas respondem de forma distinta ao mesmo estímulo, sendo essencial ajustar a carga de forma individualizada ao longo do tempo. Como referiu, “não existe uma solução única para todos”, reforçando a ideia de que a gestão eficaz da carga depende da compreensão das necessidades específicas de cada jogador em diferentes momentos.

Ao longo da intervenção, destacou a importância de um ciclo completo de monitorização, análise e tomada de decisão, alertando para o excesso de dados e para a necessidade de transformar informação em conhecimento útil. Sublinhou ainda que a tecnologia não substitui a relação com o jogador, sendo esta central no processo. Num contexto marcado por múltiplos fatores que influenciam o rendimento e o risco de lesão, defendeu uma abordagem equilibrada entre ciência e prática, baseada em princípios fundamentais como a progressão gradual da carga, garantindo desenvolvimento sustentado e desempenho consistente.

Conferência 8 | Análise da carga de treino e de jogo: dos dados à tomada de decisão informada

Catarina Bajanca (SL Benfica)

No painel científico sobre “Training and match load analysis: from data to informed decision making”, Catarina Bajanca destacou a importância da análise de desempenho não apenas para compreender o jogo, mas também para informar de forma eficaz o processo de treino. Sublinhou o futebol como um sistema complexo e dinâmico, onde jogadores, treinadores, formatos de competição e fatores contextuais interagem constantemente. Devido a esta complexidade, não existem respostas únicas na análise de desempenho, sendo que o valor dos dados depende mais da qualidade das perguntas de desempenho colocadas do que da quantidade de informação recolhida.

Apresentou diferentes abordagens à análise do jogo, incluindo perspetivas físicas, táticas e contextuais, reforçando a necessidade de as integrar em vez de as tratar de forma isolada. Embora os dados do jogo possam orientar o desenho do treino, salientou limitações importantes de métodos comuns como médias, cenários de pior caso e janelas temporais fixas, que nem sempre captam a verdadeira variabilidade do jogo. Catarina Bajanca reforçou que a tomada de decisão eficaz depende da transformação dos dados em informação significativa, orientada por perguntas claras, interpretação adequada e comunicação eficaz com treinadores e equipa técnica, reconhecendo sempre que a incerteza faz parte do processo.

Notícias Semelhantes