Ebru Köksal: Derrubar barreiras e promover mudanças sistémicas
A liderança no futebol é muitas vezes medida em troféus, receitas e crescimento. Mas o seu verdadeiro teste está noutro lugar: em saber se deixamos o jogo mais inclusivo do que o encontrámos. Para mim, a questão nunca foi se a mudança é necessária — mas sim como a podemos acelerar.
Ao longo dos meus cargos de liderança no futebol, incluindo como a primeira mulher eleita para o Conselho Executivo da European Club Association (atualmente EFC) em 2010, vivi em primeira mão as barreiras estruturais e culturais que continuam a impedir uma maior igualdade e inclusão no nosso jogo. O facto de “mudança sistémica” ainda fazer parte do nosso vocabulário em 2026 reflete as realidades diárias que muitas mulheres continuam a enfrentar.
Investigação publicada em 2025 identificou barreiras culturais, desafios de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e preconceitos inconscientes como fatores persistentes que contribuem para a disparidade de género nos salários e nos cargos executivos. Destacou igualmente estratégias claras para enfrentar estes problemas: compromisso da liderança, mentoria e patrocínio, combate ao preconceito inconsciente e promoção de culturas inclusivas.
Estes princípios têm orientado o meu trabalho com a Women in Football (WIF) desde que integrei a Direção em 2015 e assumi a presidência em 2018. Ao longo da última década, registaram-se progressos inegáveis dentro de campo — tanto ao nível da participação como do investimento financeiro no futebol feminino. No entanto, os acontecimentos que se seguiram à vitória de Espanha no FIFA Women's World Cup, em Sydney, em 2023, foram um lembrete claro de que, ao nível executivo, as dinâmicas de poder existentes ainda exigem reformas significativas.
No espaço de um mês após essa final, a WIF lançou a campanha Open Doors, apelando à FIFA e às suas seis confederações continentais para que tornassem obrigatória uma liderança mais diversa nas associações nacionais. A campanha propôs um roteiro com vista a uma meta inicial de, pelo menos, 30% de representação feminina nas assembleias gerais e nos comités executivos, bem como a inclusão de administradores não executivos independentes e o reforço dos padrões de governação.
No centro destas propostas estava um princípio simples: nenhum jogador ou colaborador deve ser sujeito a discriminação, abuso, assédio ou contacto físico inadequado — e, quando ocorram violações, as consequências devem ser claras e aplicáveis. Igualmente importante é o reforço dos mecanismos de denúncia, para que falar seja seguro e eficaz.
Atualmente, apenas 18% dos cargos de topo (C-level) no futebol são ocupados por mulheres. Para enfrentar esta realidade, a WIF e a European Football Clubs (EFC) desenvolveram o programa Women on Board, que dota as participantes de conhecimentos práticos, mentoria e apoio entre pares, preparando-as para funções séniores de tomada de decisão. Como parte das suas próprias reformas de governação, a EFC comprometeu-se com metas claras: pelo menos 25% de representação feminina no seu conselho até 2027 e 35% até 2030.
Em setembro de 2025, a WIF publicou o seu inquérito anual à força de trabalho do setor. As conclusões foram preocupantes: 78% das mulheres relataram ter sofrido discriminação baseada no género no local de trabalho nos doze meses anteriores. Ao mesmo tempo, há razões para otimismo — 77% manifestaram confiança nas perspetivas futuras para as mulheres no futebol e 55% acreditam que o setor é um espaço onde as mulheres podem prosperar. Progresso e desafio coexistem.
Entre 9 e 11 de julho, terá lugar em Inglaterra a 9.ª Cimeira Global do IWG sobre Mulheres e Desporto, reunindo decisores políticos, atletas, académicos e líderes desportivos de todo o mundo. Eventos como este são importantes porque oferecem uma plataforma não só para partilhar investigação e conhecimento, mas também para transformar evidência em ação coordenada.
Um exemplo muito atual disso é o papel que estamos a desempenhar antes do Dia Internacional da Mulher (IWD), no domingo, 8 de março de 2026. O tema deste ano é “Give to Gain” (“Dar para Ganhar”), porque quando as mulheres prosperam, toda a comunidade beneficia. A WIF convidou os seus parceiros, principais intervenientes do futebol e o setor em geral a unirem-se não apenas por 24 horas, mas #TodayAndEveryDay. Estamos a incentivar as organizações a envolverem-se através de seis vias diferentes, que ajudarão a criar percursos de talento mais sólidos e a alinhá-los com um movimento credível de mudança. Essas seis vias são:
- Dar tempo.
- Dar conhecimento.
- Dar oportunidades.
- Dar visibilidade.
- Dar recursos.
- Dar voz e defesa ativa.
Com mais de 12.000 membros, a WIF continua a evoluir e, ainda este ano, lançará uma nova estratégia para os próximos quatro anos. No entanto, esta conversa vai muito além de qualquer organização individual. Se o futebol quiser manter-se credível, competitivo e globalmente relevante, tem de refletir a diversidade das comunidades que serve.
Na última conferência anual da WIF, tive o privilégio de subir ao palco no Wembley Stadium perante quinhentos delegados para proferir o discurso de encerramento. Uma das ideias centrais foi a de que todos, independentemente do género, têm a responsabilidade de garantir que a próxima geração de mulheres não enfrente as mesmas barreiras que eu enfrentei. Juntem-se a nós para concretizar essa mudança: juntos.