Gestão do Futebol: A Interação entre Comunidade, Responsabilidade Cívica, Cultura e Comércio
Artigo de opinião por Peter Moore, executivo desportivo
Reflexões da Minha Experiência no Liverpool
A gestão do futebol é frequentemente mal compreendida.
Vista de fora, as pessoas tendem a encarar a questão por um prisma bastante estreito. Pensam em treinadores, jogadores, transferências, resultados, classificações e desempenho financeiro. Esses aspetos são, evidentemente, importantes, e dominam as manchetes e o debate público. Mas a minha experiência no futebol, em particular durante o período em que liderei o Liverpool Football Club, ensinou-me que a gestão do futebol é algo muito mais profundo e complexo.
Um clube de futebol é como nenhuma outra organização. É, ao mesmo tempo, uma empresa, uma instituição cultural, um símbolo cívico e uma âncora emocional para milhões de pessoas. Carrega história, identidade, expectativa e responsabilidade de uma forma que poucas outras organizações alguma vez conhecem.
Durante os meus anos no Liverpool, compreendi que uma liderança eficaz no futebol exige equilibrar quatro forças poderosas: comunidade, responsabilidade cívica, cultura e comércio.
Estas forças estão em constante interação. Por vezes complementam-se de forma harmoniosa. Outras vezes geram tensões que exigem discernimento e liderança cuidadosa.
O desafio da gestão do futebol não está apenas em compreender cada uma destas forças individualmente, mas em entender como funcionam em conjunto e como as decisões numa área afetam inevitavelmente as restantes.
A minha experiência no Liverpool ensinou-me que a melhor liderança no futebol não se baseia no controlo. Baseia-se na custódia responsável.
A Natureza Única dos Clubes de Futebol
Antes de abordar cada uma destas quatro forças individualmente, importa reconhecer o que distingue fundamentalmente os clubes de futebol da maioria das empresas.
Na maior parte dos setores, os clientes tomam decisões racionais. Quando estão insatisfeitos, podem simplesmente optar por outro produto ou serviço. No futebol, porém, as coisas não funcionam assim.
Os adeptos não escolhem o seu clube da mesma forma que escolhem um operador de telecomunicações ou um supermercado. A ligação é emocional, herdada e profundamente pessoal.
Para muitas pessoas, a paixão por um clube começa na infância. É transmitida de geração em geração. Torna-se parte da sua identidade.
Isto significa que os dirigentes de futebol não gerem simplesmente uma marca comercial. São temporariamente responsáveis por uma instituição que tem um significado emocional profundo para gerações inteiras de pessoas. O meu avô era dos Reds, o meu pai ainda mais fervoroso. Por isso, não tive outra escolha senão apoiar o Liverpool e não o Everton.
No Liverpool, esta realidade era incontornável.
O clube não era apenas uma equipa de futebol de sucesso. Era uma parte central da vida da cidade e uma fonte de identidade para adeptos em todo o mundo.
Cada decisão, seja comercial, operacional ou desportiva, tinha consequências emocionais muito além do que seria habitual num contexto empresarial.
Isso cria um desafio de liderança de natureza completamente diferente.
A Força da Comunidade: A Pertença Emocional dos Adeptos
A primeira e mais poderosa força na gestão do futebol é a comunidade.
Os adeptos podem não ser proprietários legais de um clube de futebol, mas emocionalmente muitas vezes sentem que o são. Em muitos sentidos, têm razão. É algo que o FSG, o meu grupo de acionistas, felizmente compreendeu e abraçou.
Os jogadores passam. Os treinadores passam. Os dirigentes passam. Os proprietários podem mudar.
Os adeptos ficam.
Essa permanência cria uma dinâmica única.
No Liverpool, o vínculo entre o clube e os adeptos era extraordinário. Não era transacional. Era profundamente emocional e profundamente enraizado.
Sentia-se nas ruas nos dias de jogo, e no meu caso, todos os dias da semana. Ouvia-se em conversas por toda a cidade. Via-se em famílias onde o apoio ao Liverpool tinha passado por várias gerações.
A atmosfera em Anfield não era simplesmente fruto do entretenimento. Era muito mais do que isso: era a expressão de pertença.
Enquanto dirigente, isto significa que cada decisão deve ser abordada com humildade.
Um dos maiores erros que os líderes no futebol podem cometer é presumir que, por ocuparem cargos de autoridade, compreendem plenamente o que mais importa para os adeptos.
Os adeptos possuem frequentemente uma compreensão instintiva da identidade do clube que não se aprende em balanços ou relatórios estratégicos.
No Liverpool, envolver os adeptos não era opcional. Era essencial. No meu caso, optei por fazê-lo através das redes sociais, algo que, admito, não foi totalmente apoiado pelo grupo de acionistas, que considerava ser uma aposta arriscada. Mas acreditava que os nossos adeptos precisavam de ouvir aqueles que geriam o clube e que, com um grupo de proprietários ausente, sediado em Boston, essa era a minha responsabilidade.
Isso não significava que todos os adeptos concordassem com todas as decisões. Isso seria impossível.
O que importava era a confiança.
Os adeptos conseguem aceitar decisões difíceis quando acreditam que essas decisões são tomadas com honestidade, transparência e pensando genuinamente no interesse a longo prazo do clube.
Construir essa confiança exige comunicação, consistência e respeito.
A gestão do futebol não se resume a tomar decisões. Trata-se de levar as pessoas consigo.
A Força Cívica: A Responsabilidade de um Clube para com a Sua Cidade
O Liverpool ensinou-me algo profundo sobre os clubes de futebol e a identidade cívica.
Alguns clubes estão profundamente ligados aos lugares que representam, mas a ligação do Liverpool à sua cidade é particularmente poderosa.
A cidade de Liverpool tem um caráter singular, moldado pela resiliência, pela solidariedade, pela criatividade e por um sentido feroz de independência.
Essas mesmas qualidades refletem-se no clube de futebol.
O Liverpool Football Club não está separado da cidade. É uma extensão dela.
Enquanto CEO, fui percebendo que liderar o clube significava também representar a própria cidade num palco global.
Os clubes de futebol funcionam frequentemente como embaixadores das suas comunidades.
Para milhões de pessoas em todo o mundo, a perceção que têm de uma cidade é moldada pelo seu clube de futebol.
Isso cria uma responsabilidade que vai muito além do desporto.
Um clube de futebol deve contribuir de forma significativa para a vida da sua cidade: investindo nas comunidades locais, apoiando iniciativas educativas, criando oportunidades de emprego e usando a sua plataforma para gerar um impacto social positivo.
No Liverpool, esta responsabilidade nunca foi abstrata.
A relação entre o clube e a cidade era visível todos os dias.
Os sucessos do clube eram triunfos cívicos partilhados. As dificuldades eram sentidas coletivamente.
Isso cria uma obrigação poderosa para a liderança de um clube de futebol.
Um clube de futebol não pode funcionar apenas como uma máquina comercial focada na geração de receitas.
Tem de permanecer ligado às pessoas e ao lugar que lhe deram sentido.
Uma das lições mais importantes que aprendi foi que a autenticidade local reforça o apelo global.
Quanto mais forte for a ligação de um clube à sua comunidade de origem, mais poderosa se torna a sua identidade a nível mundial.
A relevância global começa com a autenticidade local. Por isso, cunhei a expressão "Local Heart, Global Pulse", que me parece capturar tudo aquilo que este clube único representa. Encomendei também um Relatório de Impacto Económico à Deloitte para tentar compreender as verdadeiras contribuições financeiras do clube para a cidade e a região nos dias de jogo. O valor apurado ultrapassou largamente os 500 milhões de libras por ano.
A Força Cultural: Preservar o que Torna um Clube Especial
Se a comunidade é o coração emocional de um clube de futebol, a cultura é a sua bússola interior.
A cultura é frequentemente discutida em termos vagos, mas na prática é algo extraordinariamente tangível.
A cultura reflete-se nos padrões que se adotam.
Reflete-se no comportamento quando ninguém está a observar.
Reflete-se na forma como as pessoas se tratam umas às outras, como as decisões são tomadas e o que é tolerado ou rejeitado.
No Liverpool, a cultura era um dos maiores pontos fortes do clube.
A identidade do clube havia sido moldada ao longo de décadas por figuras extraordinárias como Bill Shankly, e mais tarde por líderes que compreenderam que o sucesso se constrói com base num propósito coletivo.
Os princípios de humildade, trabalho árduo, resiliência e espírito de equipa estavam profundamente enraizados. Espelhavam os valores de uma cidade de pessoas trabalhadoras que atravessaram tempos difíceis, à medida que as indústrias evoluíram e deixaram para trás uma cidade portuária outrora poderosa.
Uma das responsabilidades mais importantes da liderança no futebol é proteger a cultura, permitindo ao mesmo tempo que ela evolua, algo que está longe de ser simples.
O futebol é uma indústria em constante movimento. Há permanente pressão para mudar, escrutínio externo contínuo e exigência de resultados imediatos.
Neste contexto, a cultura pode ser facilmente comprometida se a liderança se tornar reativa.
No Liverpool, preservar a integridade cultural exigiu disciplina.
Cada contratação contava.
Cada decisão de recrutamento moldava o ambiente.
Cada padrão interno reforçava ou enfraquecia a cultura.
Isto era válido tanto para cargos de direção como para os departamentos de operações desportivas ou de liderança comercial.
A cultura não pode ser delegada. Tem de ser cultivada e ativamente protegida.
A expressão "This Means More" ressoou porque capturou algo que os adeptos já sentiam.
Não foi fabricada. Muito pelo contrário, refletia uma verdade autêntica sobre o que o clube representava.
As culturas mais sólidas no futebol não são inventadas por equipas de marketing.
Emergem da história, da experiência vivida e de um comportamento consistente. Para sustentar isso, escrevi um manifesto para a equipa interna, os 800 colaboradores que, normalmente, não chutam uma bola pelo clube. Usando como tema o You'll Never Walk Alone, o texto dizia o seguinte:

Sei que alguns membros da equipa consideraram esta abordagem "demasiado americana", mas acredito que a grande maioria a abraçou e viveu segundo essas palavras.
Uma boa gestão no futebol exige reconhecer que a cultura não é um conceito intangível.
É um ativo estratégico.
Influencia o desempenho, a resiliência, a tomada de decisão e a confiança.
A Força Comercial: Crescimento com Integridade
O futebol moderno opera num mercado global de competição intensa.
O sucesso comercial já não é opcional.
As receitas impulsionam o investimento em jogadores, instalações, infraestrutura, tecnologia e sustentabilidade a longo prazo.
No Liverpool, tínhamos plena consciência de que o crescimento comercial era essencial para que o clube pudesse competir de forma consistente ao mais alto nível.
O apelo global do clube criava oportunidades enormes.
O Liverpool tinha uma das bases de adeptos mais apaixonadas do futebol mundial e uma marca reconhecida em todos os continentes.
O desafio estava em saber como aproveitar esse potencial comercial sem comprometer a autenticidade.
É aqui que muitos clubes de futebol falham.
Existe frequentemente a tentação de perseguir ganhos comerciais a curto prazo sem ponderar devidamente a forma como essas decisões se alinham com a identidade do clube.
Os adeptos são extraordinariamente perspicazes.
Conseguem perceber quando as decisões comerciais parecem desligadas dos valores do clube.
No Liverpool, o nosso objetivo era garantir que o crescimento comercial fortalecia o clube em vez de o diluir.
Isso exigiu critério na seleção de parceiros.
Exigiu compreender que nem todas as oportunidades eram as oportunidades certas.
Exigiu equilibrar inovação com tradição.
A liderança comercial no futebol é, em última análise, uma questão de alinhamento.
A geração de receitas deve servir o desempenho desportivo.
As parcerias comerciais devem reforçar, e não comprometer, a identidade do clube.
A expansão global deve aprofundar o envolvimento, e não criar distância em relação aos adeptos mais fiéis.
Um dos aspetos mais gratificantes do meu tempo no Liverpool foi ver como um forte desempenho comercial pode gerar um ciclo virtuoso.
O sucesso comercial financiou o investimento desportivo.
O sucesso desportivo aumentou o envolvimento global.
O envolvimento global fortaleceu as oportunidades comerciais.
Quando bem gerido, o comércio torna-se um motor de ambição desportiva a longo prazo.
Mas só funciona se a confiança e a autenticidade se mantiverem intactas.
Liderar Sob Pressão
O futebol é uma das indústrias com maior pressão no mundo.
Poucos cargos de liderança operam sob um escrutínio público tão intenso e permanente.
Cada resultado é analisado.
Cada decisão é debatida.
Cada revés é amplificado.
Isso cria exigências únicas de liderança.
No Liverpool, aprendi que uma das qualidades mais importantes num líder de futebol é a serenidade emocional.
A tentação no futebol é tornarmo-nos excessivamente reativos.
Um mau resultado pode gerar pressão para mudanças imediatas.
Uma sequência de vitórias pode criar excesso de confiança.
Uma liderança eficaz exige resistir a ambos os extremos.
Exige manter a perspetiva.
Exige tomar decisões com base em princípios de longo prazo, e não em emoções do momento.
Isto é frequentemente mais fácil de dizer do que de fazer.
O futebol é, por natureza, emocional.
Essa intensidade emocional faz parte do que o torna tão poderoso.
Mas liderar exige equilibrar paixão com disciplina.
É preciso sentir o significado emocional do clube ao mesmo tempo que se mantém a lucidez suficiente para tomar decisões racionais.
Esse equilíbrio é um dos desafios definidores da gestão do futebol.
O Desafio Central: Equilibrar as Quatro Forças
A maior lição que aprendi no Liverpool foi que a liderança no futebol é, em última análise, uma questão de equilíbrio.
A comunidade exige ligação.
A identidade cívica exige responsabilidade.
A cultura exige consistência.
O comércio exige disciplina.
Estas forças nem sempre se alinham com facilidade.
Há momentos em que uma oportunidade comercial cria tensão com as expectativas dos adeptos.
Há momentos em que as pressões desportivas de curto prazo desafiam a estabilidade cultural.
Há momentos em que as realidades financeiras põem à prova os compromissos cívicos.
Liderar significa navegar estas tensões com ponderação.
Raramente existem respostas perfeitas.
Quase sempre existem compromissos.
A chave está em permanecer ancorado nos princípios fundamentais.
No Liverpool, compreendi que liderar um clube de futebol não significa impor a vontade própria.
Significa servir algo maior do que nós próprios.
Somos responsáveis, por um período de tempo, por proteger e fazer avançar uma instituição que existia muito antes de chegarmos e que perdurará muito depois de partirmos.
Esta perspetiva muda tudo. Encoraja a humildade, afina o julgamento e reforça a responsabilidade.
Conclusão
O meu tempo no Liverpool reforçou uma convicção fundamental.
Os clubes de futebol estão entre as instituições sociais mais poderosas da sociedade moderna.
Criam sentido de pertença.
Moldam identidades.
Ligam gerações.
Unem comunidades para além de fronteiras geográficas, de classe e de cultura.
Gerir um clube de futebol vai, portanto, muito além da estratégia de negócio ou das operações desportivas.
Trata-se de compreender as forças que fazem com que o futebol seja relevante.
A comunidade dá ao clube o seu pulsar emocional.
A identidade cívica dá-lhe raízes.
A cultura dá-lhe caráter.
O comércio dá-lhe sustentabilidade.
A arte da gestão do futebol reside em equilibrar as quatro.
Quando esse equilíbrio é alcançado, um clube de futebol torna-se muito mais do que uma organização desportiva de sucesso.
Torna-se uma força de ligação, orgulho, significado e impacto duradouro.
Foi isso, acima de tudo, que a minha experiência no Liverpool me ensinou.