Artigos de opinião 10 Jun 2026

A engenharia invisível do futebol

A engenharia invisível do futebol

Artigo de opinião de Daniel Ribeiro, Diretor da Divisão de Seleções da Federação Portuguesa de Futebol

Há uma pergunta que me fazem com regularidade, sobretudo nos meses que antecedem uma grande competição como o Campeonato do Mundo: quando é que a preparação realmente começa?

A resposta honesta é que nunca sabemos ao certo. Quando olhamos para trás, percebemos que certas decisões tomadas dois ou três anos antes acabaram por ser tão determinantes quanto a convocatória ou o plano tático. O que separa as federações que chegam prontas das que chegam a tentar recuperar não é só o talento. É a antecipação.

Falamos não sobre o futebol, mas sobre a estrutura que o torna possível.

Quando a seleção entra num Campeonato do Mundo, o público vê onze jogadores. O que não vê são as centenas de decisões operacionais, contratuais e estratégicas que tornaram aquele momento possível. Decisões sobre logística, concentração, parceiros de saúde, comunicação, mobilidade. Toda uma arquitetura que precisa de estar montada antes de o torneio começar, e que, se falhar, ninguém esquece.

O desafio é que essa arquitetura é construída com recursos alheios. E cada recurso tem dono, agenda e objetivos próprios. Preparar uma seleção para um grande torneio é, por isso, também uma operação de alinhamento de interesses. E é aqui que começa o verdadeiro trabalho.

Nem todas as parcerias são iguais. Há fornecedores que entregam um serviço. E há parceiros que têm tanto a ganhar quanto nós com o sucesso do projeto. A distinção parece simples. Na prática, é tudo. Um parceiro com interesse genuíno no resultado tem uma disponibilidade diferente quando as coisas correm de forma inesperada, e correm sempre. Adapta-se. Resolve. Não invoca o contrato. O que procuramos, cada vez mais, são relações em que a sobreposição de objetivos seja real, não apenas declarada numa apresentação de proposta.

Isso obriga-nos a ser mais seletivos. A resistir à tentação de maximizar o número de parceiros em detrimento da qualidade do alinhamento. A fazer perguntas difíceis antes de assinar: o que quer esta organização para além da visibilidade? Qual é o horizonte temporal do seu compromisso? Onde é que os nossos interesses divergem?

Um Campeonato do Mundo não é apenas uma competição desportiva. É uma janela. Uma oportunidade de mostrar ao mundo o que somos, como trabalhamos, que tipo de país e de futebol representamos. As organizações que se associam a uma seleção num momento destes não estão apenas a investir numa equipa. Estão a investir numa narrativa nacional. Isso muda o peso da decisão, de ambos os lados.

Para nós, a escolha dos parceiros deixou de ser apenas uma questão operacional. É também uma questão de imagem. O que queremos que fique, quando o torneio acabar?

Preparar um Mundial começa muito antes do primeiro apito. Começa quando decidimos com quem queremos partilhar esse caminho. E essa decisão exige tanto cuidado quanto a escolha dos onze que vão jogar.

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