Descoberta Guiada: Como o Futebol Português me Ensinou a Entregar Dados
Artigo de opinião por Sudarshan Gopaladesikan, Diretor Técnico do Newcastle United
Cheguei ao Benfica em 2017, vindo diretamente da equipa de produto do Power BI na sede da Microsoft, em Redmond. Trabalhar na Microsoft era como visitar Fátima: todos partilhavam uma fé no poder da tecnologia, da mesma forma que aqueles que percorrem o caminho até Fátima acreditam numa força maior do que a soma da humanidade individual. E não era só na Microsoft. Em Seattle e Silicon Valley, a densidade de campus tecnológicos fazia com que a minha vida estivesse constantemente rodeada de pessoas que acreditavam nos dados.
O Benfica Campus era diferente, mas havia mais semelhanças do que eu esperava. No Seixal, as pessoas acreditavam na Mística do Benfica. No Estádio da Luz, acreditavam no Inferno da Luz. Em 1934, Fernando Pessoa escreveu em Mensagem que “o mito é o nada que é tudo” — a ideia de que realidades intangíveis podem moldar a história e dar sentido à existência humana. A cultura do futebol português vive dentro dessa mesma fé. Afinal, Portugal é o país de 10 milhões de pessoas, 6 milhões das quais são treinadores.
Estou a divagar — mas a educação futebolística que recebi em Portugal não pode ser totalmente expressa escrevendo apenas sobre como usar dados dentro de um clube. Na verdade, esta fé no mito é precisamente a base sobre a qual os dados podem integrar-se de forma orgânica no futebol, sem se tornarem um confronto entre o “velho tradicional” e o “novo moderno”.
Um dos meus mentores, Nuno Maurício, Head of Analysis no SL Benfica, ensinou-me que a filosofia de treino portuguesa assenta na “Descoberta Guiada”: o treinador desenha ambientes, contextos e jogos reduzidos, mas nunca dita uma única solução correta. Os jogadores recebem autonomia para chegar às suas próprias conclusões. Aprendem a ler o jogo melhor e aderem mais aos padrões que eles próprios descobriram.
A adoção de dados deve seguir a mesma lógica. O presidente, o diretor desportivo e o treinador têm de ser os principais motores de como algoritmos e visualizações são construídos. O nosso trabalho, enquanto profissionais de dados, é desenhar versões em dados desses jogos reduzidos. Em vez de impor uma cultura de dashboards, devemos provocar curiosidade: partilhar os resultados de uma análise e a forma como classificam jogadores ou equipas, e permitir que os decisores questionem. Identificar quais as variáveis que impulsionam o poder preditivo de um modelo e analisá-las uma a uma em vídeo. Entregar os dados de forma a transmitir que a análise está incompleta — que o contributo deles é o que completa o puzzle. A análise passa a ser deles. O compromisso revela-se em perguntas mais incisivas e decisões mais rápidas.
A repetição também é fundamental. Soluções de dados desenvolvidas em segundo plano, apresentadas aos decisores de poucos em poucos meses, é como treinar um dia por semana em vez de cumprir um microciclo completo. O mito dos dados já é real — ninguém questiona o seu valor — por isso o que falta é treinar a sua integração de forma consistente. Com a inteligência artificial, o ritmo de progresso rápido e visível é finalmente alcançável.
Os modelos de linguagem são o primeiro grande artefacto dessa vaga de IA. A capacidade de consultar em linguagem natural permite transformar conhecimento em números, e o futebol português deve ter uma vantagem aqui. A nossa linguagem é rica em descrições do jogo: construção em primeira e segunda fase, criação e finalização, as subfases da transição, a intenção por trás das superioridades numéricas nos corredores laterais, o valor das desmarcações sem bola que criam espaço ou da pressão que o destrói. Cada uma destas frases pode ser traduzida em números com as fontes de dados disponíveis hoje. E cada uma é também o tipo de instrução que um treinador dá a um jogador. Isto dá às equipas de dados um ponto de partida: começar pela linguagem do treinador e construir um modelo a partir daí. Os dados passam então a ser uma extensão da metodologia do clube, e não um sistema externo a disputar o controlo sobre a forma como o desempenho é percecionado.
A profunda semelhança entre os centros de treino portugueses e os campus de Silicon Valley é uma fé comum no desenvolvimento. Se os especialistas de dados dentro do nosso desporto se focarem em desenvolver ideias e demonstrá-las, os decisores poderão observar os dados crescer da mesma forma que um jovem jogador cresce — de promessa a titular nas decisões que mais importam.