Artigos de opinião 16 Jul 2026

Admirável Mundo Novo: Como o Panorama Mediático do Mundial Mudou

Admirável Mundo Novo: Como o Panorama Mediático do Mundial Mudou

Artigo de opinião por Pedro Pinto, ex-pivô da CNN e Diretor de Comunicação da UEFA, host do Portugal Football Summit e Fundador e CEO da Empower Sports.

Considero-me um veterano dos Campeonatos do Mundo. Acompanho a prova desde 1982 e tive o privilégio de trabalhar em três, como jornalista. O primeiro que cobri foi em 2002, como jovem correspondente da CNN International. Segui o torneio pela Coreia do Sul e pelo Japão, produzindo peças para um único feed global. Os adeptos de todo o mundo contavam com a cobertura global da CNN para obter análises, opiniões de especialistas e para ouvir as estrelas a que tínhamos acesso. Era uma programação complementar, muitas vezes de visionamento obrigatório, ao que quer que a emissora anfitriã e a respetiva rede nacional decidissem mostrar, à hora que o seu horário permitisse. Se perdesse os melhores momentos ou os noticiários de determinado canal, esperava-se pelo seguinte. Esse era o acordo, e ninguém o questionava, porque não havia alternativa. Vinte e quatro anos depois, a acompanhar este negócio do futebol em vez de o noticiar, dou por mim surpreendido com o quanto os tempos mudaram.

Os pilares tradicionais continuam de pé. Por exemplo, a Fox e a Telemundo lideram a cobertura em inglês e espanhol nos Estados Unidos, a BBC e a ITV repartem entre si a cobertura no Reino Unido, a Globo continua a ser uma referência no Brasil. Mas, sobreposto a isso, existe um modelo genuinamente descentralizado que leva os jogos, os resumos, os conteúdos e as entrevistas aos adeptos onde e como estes quiserem. No Brasil, a casa exclusiva de todos os 104 jogos não é sequer uma emissora, é a CazéTV, um canal gratuito do YouTube criado pelo streamer Casimiro Miguel, que superou em licitação e em alcance a rede tradicional do país para os direitos integrais do torneio. A nível global, a FIFA nomeou o TikTok como parceiro preferencial de conteúdos curtos e fechou um acordo separado que permite aos detentores de direitos transmitir ação de jogo ao vivo, incluindo os primeiros dez minutos de cada jogo, diretamente no YouTube. Ver um jogo do Mundial já não exige um pacote de cabo, uma antena parabólica, ou sequer uma televisão.

Depois há o conteúdo construído à volta do futebol, que agora rivaliza com o próprio futebol. A Netflix, tendo já garantido os direitos nos Estados Unidos para os dois próximos Mundiais femininos, aproveitou este Mundial masculino para mostrar músculo desportivo de outra forma: levou a equipa do podcast de sucesso "The Rest Is Football", com Gary Lineker, Alan Shearer e Micah Richards, a um estúdio em Nova Iorque para quarenta programas diários consecutivos, até à final, investindo, segundo consta, uma fortuna numa equipa de produção de cerca de 150 pessoas, comparável a uma verdadeira operação de transmissão. Lançou também um jogo jogável do Mundial FIFA dentro da própria aplicação. Nada disto exigiu o pagamento de direitos por um único jogo.

E depois há o IShowSpeed. O que começou como um hino viral de adeptos antes do Qatar 2022 transformou-se em algo próximo de uma embaixada oficial para o criador de conteúdos: a FIFA, a Fox e o YouTube deixam-no mesmo transmitir em simultâneo imagens dos jogos, tanto a partir dos estádios como do seu estúdio em casa; a sua influência ficou clara quando recebeu a primeira YouTube FIFA Creator Cup, arbitrada por Pierluigi Collina e orientada por Cafu e Marco Materazzi. O seu hino não oficial entrou no álbum oficial da FIFA. A sua transmissão da estreia de Portugal terá reunido, segundo consta, 9,2 milhões de espectadores, mais do que a própria audiência da transmissão da Fox para o mesmo jogo. Há vinte anos, esta frase não faria sentido nenhum. Hoje é um caso de estudo.

O que tudo isto significa não é mais ruído, mas mais escolha, e essa é a verdadeira história para quem trabalha nesta indústria. Um adepto, hoje, não consome "o Mundial". Compõe o seu próprio Mundial, indo buscar conteúdo à televisão linear, ao streaming por subscrição, ao YouTube gratuito e financiado por publicidade, aos clips do TikTok, ao programa de conversa da Netflix e ao feed de reações de um streamer, muitas vezes em simultâneo, muitas vezes no mesmo dispositivo.

Para detentores de direitos, patrocinadores e federações, o antigo modelo de escolher um único parceiro de transmissão e confiar no trabalho jornalístico para complementar as mensagens da marca já não existe. A nova tarefa é construir, de forma estratégica, uma presença coerente numa dezena de formatos que não se controlam totalmente, dirigida a públicos que esperam agora escolher o seu próprio narrador, muitas vezes durante as vinte e quatro horas do dia. Em Seul, em 2002, o Mundial chegava até nós por uma única janela. Em 2026, chega por tantas janelas quantas o adepto queira abrir, e isso muda tudo na forma como este desporto fala com o mundo.

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