Artigos de opinião 08 Jul 2026

O Legado Não é Passado, É Presença

O Legado Não é Passado, É Presença

Artigo de opinião de Nuno Gomes, antigo internacional português e Especialista em Alto Rendimento da FIFA

Deixamos de jogar, mas o futebol raramente nos deixa ir embora de vez. No meu caso, a FIFA é uma das organizações que mantém essa ligação viva: este ano, com o Mundial 2026, levou-me a acompanhar jogos nos Estados Unidos, no Canadá e no México, a sentar-me com equipas técnicas de seleções, e a visitar comunidades onde o futebol se vive com a mesma intensidade de sempre, ainda que de formas muito diferentes das nossas. É um privilégio ver, tão de perto, o quanto o mesmo jogo pode significar coisas tão diferentes em cada canto do mundo.

Nestas andanças cruzo-me constantemente com antigos colegas e adversários, gente com quem disputei bolas divididas há vinte anos e que hoje, tal como eu, encontrou outra forma de continuar ligada ao futebol, seja a analisar jogos, a formar treinadores ou a representar as suas seleções em bastidores muito diferentes dos que conhecíamos como jogadores. Foi também este ano que a essa lista se juntou uma faceta nova: o programa Portugal Legends, que me trouxe de volta à seleção, ainda que com outro propósito.

Foi numa dessas viagens que cheguei a Toronto, dias antes do Portugal-Croácia, e vi a cidade canadiana pintada de vermelho e verde. Milhares de portugueses e luso-descendentes a caminhar horas a fio pelas ruas do centro, a cantar, a fechar avenidas inteiras a caminho do estádio. Levo mais de trinta anos ligado a este desporto e não me lembro de sentir um apoio assim, tão longe de casa e, ao mesmo tempo, tão dentro dela.

Quem vê aquela multidão de fora percebe logo o que a camisola representa para os adeptos. Só quem a veste sabe o que ela pesa por dentro. Foi isso que tentei explicar há semanas, no palco do Portugal Football Summit em Miami, ao lado do Nani: perguntaram-me se me lembrava do que é chegar à seleção, e ouvi-me a responder que esse é o patamar mais alto da carreira de qualquer jogador. Ainda hoje digo que, até me provarem o contrário, aqueles foram os melhores dias da minha vida.

É talvez por isso que, durante muitos anos, pensei que o maior património de uma seleção eram os títulos, e hoje acredito que são as pessoas que ajudam a construir a sua identidade ao longo do tempo. O futebol vive de memória, mas as federações precisam de pensar para lá dela, de transformar esse património em presença. É aí que projetos como o Portugal Legends fazem sentido: não é nostalgia organizada, é a Federação a dar aos antigos internacionais um papel concreto, ano após ano, muito depois de termos deixado de ser convocados.

Quando um antigo internacional visita uma comunidade local ou representa a Federação num grande evento, está a criar uma ponte entre gerações. E, disse-o também em Miami, eventos como este ajudam os próprios jogadores: dão-lhes espaço para continuarem envolvidos e tempo para decidirem, com mais calma, o que querem fazer do resto da carreira.

Isso implica responsabilidade. Quem vestiu a camisola nacional continua a ser referência para muitos jovens, continua a representar valores e uma forma de estar, e esse capital não deve ficar guardado numa sala de troféus. Deve continuar ativo, e as grandes organizações desportivas distinguem-se precisamente por saberem cuidar do seu legado, envolvendo essas pessoas na construção do futuro.

No futebol falamos muito de sucessão dentro das quatro linhas. Talvez seja tempo de falarmos mais da sucessão fora delas. Porque uma Seleção não é feita apenas pelos jogadores que entram em campo hoje. Também é construída por quem continua disponível para servir a mesma camisola, de uma forma diferente.

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