Sol Campbell: IA no Futebol? "Ainda Não Vimos Nada"
Entrevista exclusiva PFS com Sol Campbell, ex-futebolista internacional e empresário
Refletes muitas vezes sobre os desafios que enfrentaste a crescer e sobre como eles moldaram a tua carreira. De que forma essas experiências iniciais influenciam a maneira como abordas o futebol hoje, no teu papel atual?
Quando cresci havia oportunidades, mas era preciso ser muito perspicaz nas decisões certas, porque não havia rede de segurança, não havia margem de erro. Tinhas de calcular rapidamente e ter a certeza de ti próprio, porque se errasses, estavas praticamente acabado. Não tive quatro, cinco, seis hipóteses. No ambiente onde cresci, em Stratford, no East London, se tivesses uma oportunidade, eras sortudo. A segunda hipótese não aparecia.
Tinhas de amadurecer depressa. E se não estavas atento, eras apanhado muito rapidamente.
Transportei essa mesma mentalidade para o futebol, e agora para a construção de um negócio no mundo da tecnologia. Construir equipas no sentido futebolístico, isso eu entendia. Mas agora tens de construir equipas no universo dos programadores e engenheiros, pessoas cujo universo não dominas completamente. Por isso recorres ao que conheces: as relações humanas, a psicologia, o instinto. Colocas as pessoas certas nas posições certas, dás-lhes espaço e tempo, e confias no processo. Não sei tudo tecnicamente, por isso sirvo-me de outros fatores com que cresci para me orientar. E por vezes o instinto é a melhor âncora que tens.
Viveste o futebol por múltiplos ângulos: jogador, treinador, e agora mentor e empresário. Qual desses papéis te deu uma visão mais clara de onde estão os verdadeiros problemas da indústria?
Como treinador. Foi aí que realmente vi as lacunas em múltiplas posições e a vários níveis.
Como jogador, estás focado em ti próprio: a tua forma física, a tua preparação, o teu estado mental. Não estás a olhar para o que se passa nos bastidores ou para a forma como os outros jogadores são treinados. Mas como treinador, começas a ver tudo. Mesmo no topo, com um orçamento maior, as lacunas continuam a existir.
Treinei uma equipa da antiga Quarta Divisão, agora a League Two, e vi as restrições orçamentais, os problemas estruturais. Depois tinha vivido o nível mais alto como jogador e também vi as lacunas aí. Por isso, ser treinador deu-me uma visão privilegiada do interior. Como jogador, perdes muita coisa porque estás concentrado noutras coisas. Como treinador, és consciente de todo o ecossistema.
Fizeste parte dos Invencíveis no Arsenal, jogaste em Mundiais e grandes torneios. Houve um momento particular, um jogo, um adversário, uma mudança, que te disse que o jogo estava a mudar?
Dois momentos, na verdade. A nível internacional, foi jogar contra a Argentina no Mundial de 1998. Senti a mudança ali mesmo, a velocidade, a fisicalidade, a inteligência exigida. Jogadores de todos os tamanhos e feitios, e era preciso ser bom, forte, ágil, inteligente, e capaz de pensar de forma diferente, tudo ao mesmo tempo. Fiz parte dessa mudança e adorei.
No futebol inglês, a mudança veio um pouco antes, por volta de 1996, 1997. Foi quando o dinheiro da televisão realmente arrancou, e depois do Euro '96 em Inglaterra, a qualidade dos jogadores e treinadores que chegaram subiu para outro nível. Todo o ecossistema cresceu. E eu estava preparado para isso. Abracei-o. Quando chegam grandes jogadores à tua volta, queres aprender, queres elevar o teu próprio nível. Foi aí que comecei realmente a ver o futebol de forma diferente.
O que te marcou mais especificamente naquele jogo contra a Argentina?
A velocidade. Passou para um nível completamente diferente. E o que me impressionou foi que não era apenas uma questão de fisicalidade, era uma questão de liberdade. Aqueles jogadores tinham liberdade para se expressar, para tomar decisões no momento. Sem restrições.
Há muitas restrições sobre os jogadores hoje em dia. Tens de jogar neste sistema, fazer isto, ficar aqui. E por vezes é preciso um pouco de liberdade, especialmente no último terço. Aquela equipa argentina tinha isso. Foi uma lição que nunca esqueci.
Tens uma formação académica, jogaste ao mais alto nível e agora estás a construir empresas de tecnologia. Como avalias o impacto atual da IA no futebol?
Honestamente? Ainda não vimos nada.
O impacto está a chegar, mas ainda não chegou, pelo menos não de uma forma significativa e generalizada. O problema está na recolha de dados. É essa a parte morosa. E depois há questões de propriedade, regulação, enquadramento legal... Os governos e os advogados precisam de se juntar para permitir o acesso da forma certa.
Ninguém encontrou ainda a solução. Talvez estejam a trabalhar nisso, talvez precisem do próximo avanço tecnológico. Mas no desporto especificamente, o verdadeiro potencial da IA ainda está por vir.
Achas que vai acabar por mudar o próprio jogo, o que acontece dentro de campo?
Dentro de alguns anos, sim, mas penso que o primeiro grande impacto não será dentro de campo. Será na acessibilidade. Tornar o custo de um treino de qualidade acessível para crianças em partes do mundo que atualmente não têm nenhum. É para isso que estou a construir.
Para além disso, há uma enorme oportunidade em torno da experiência no estádio. Os clubes já estão a criar ambientes onde os adeptos chegam duas ou três horas antes do pontapé de saída e ficam duas ou três horas depois. Os novos mega-estádios, com bowling, restaurantes, espaços de entretenimento, tudo concebido para prolongar esse tempo e gerar mais receita. Essa interação ainda está numa fase inicial, e a IA vai impulsioná-la ainda mais.
Apresentaste o Global 360 no PFS do ano passado. Que problema no futebol estás especificamente a tentar resolver?
O acesso a treino de qualidade. Esse é o problema central.
Há crianças por todo o mundo, e pais que querem ajudar os filhos a melhorar, que simplesmente não têm acesso a treinadores capazes de analisar o seu movimento, corrigir a sua técnica, orientá-los. Mesmo uma melhoria de 1%, aplicada de forma consistente, compõe-se em algo significativo.
O que quero construir é essencialmente um treinador pessoal no teu bolso. Algo que observa o teu movimento, identifica o que estás a fazer mal, o que estás a fazer bem, e dá-te feedback para que na próxima sessão regresses com algo específico para trabalhar.
A longo prazo, quero conseguir treinar um milhão de crianças por dia na plataforma. Quero que os clubes a utilizem em campos de treino onde podes ter 150 crianças e 10 treinadores e essa proporção não permite atenção ao detalhe. A plataforma colmata essa lacuna. Grava as sessões, analisa o movimento, dá aos treinadores uma ferramenta que podem rever e ajustar. Não se trata de substituir os treinadores. Trata-se de lhes permitir alcançar mais sem perder qualidade. Tirar o trabalho pesado da análise para que se possam concentrar no que só um treinador humano consegue fazer.
Para além do Global 360, em que mais estás a trabalhar?
Legends Corner. É um podcast que acabei de lançar, e tem duas versões. O programa principal sou eu com jogadores com quem partilhei o relvado ao longo dos anos. Mostramos imagens, falamos sobre momentos específicos, eu a batalhar contra eles há 20 anos, mas há também um elemento gastronómico e de localização. É sobre de onde são, onde vivem. Quero transportar o espectador para diferentes partes do mundo, mostrar como aquele jogador que adoravas vivia, o que está a fazer agora.
É um formato de mini-documentário e está no meu canal de YouTube.
Depois há o Legends Corner Plus, que tem um ângulo diferente: entrevistar celebridades que adoram futebol. São duas coisas separadas, ambas em desenvolvimento.
Muitos ex-jogadores têm dificuldade em fazer essa transição para o mundo dos negócios ou da tecnologia. Qual é o conselho honesto que darias a um ex-profissional que quer dar esse passo?
A maior questão é a confiança. Ou a falta dela. E é compreensível. Somos treinados, desde muito cedo, para nos mantermos no nosso espaço. Joga de forma incrível, faz o teu trabalho, não te preocupes com mais nada. Esse condicionamento é profundo.
Mas sair dele não exige reinventares-te. Exige voltares a quem eras antes de esse condicionamento se instalar. Quando eras criança, antes do futebol profissional, tinhas um espírito empreendedor: "Quero fazer isto, quero experimentar aquilo." Foi esse instinto que te levou ao topo. Só precisas de o reconectar.
A chave é a autenticidade. Quanto mais genuinamente tu próprio fores, mais liberdade sentes, liberdade para ir além dos limites que os outros definiram para ti. A maioria dos futebolistas tem esse faro empreendedor. Foi o que os tornou suficientemente diferentes para chegar onde chegaram. É só uma questão de o reativar.
Participaste na Portugal Football Summit no ano passado. Como foi essa experiência?
Foi genuinamente ótima. A Federação Portuguesa de Futebol deu-me a plataforma para apresentar o meu trabalho, a minha plataforma, e isso não se deve dar como garantido. Fiquei muito satisfeito por ver os jogadores da seleção nacional aparecerem e assistirem às sessões. Essa ligação entre o lado da indústria e o lado do futebol é importante. Mantém tudo enraizado no jogo.
Diria a todos os envolvidos: mantenham essa abertura. Mantenham a positividade. Continuem a construir. Mas nunca percam a essência, a ideia de que o grande pensamento futebolístico pode vir de qualquer lugar.
Se pudesses colocar um tema na agenda da próxima Portugal Football Summit, qual seria?
Colaboração entre diferentes origens, culturas e carreiras.
Há ex-jogadores de todo o mundo que jogaram em Portugal, que vivem em Portugal, que têm ideias dentro deles neste momento e a quem ninguém perguntou. Alguns não são expressivos. Alguns são tímidos. Mas podem ter uma ideia genuinamente brilhante.
É assim que os melhores ecossistemas tecnológicos funcionam. Abres o espaço, crias um ambiente onde as pessoas se sentem seguras para dizer o que pensam. Nem todas as ideias resultam. Mas algumas sim, e por vezes as que resultam vêm dos lugares mais inesperados.
Gostava de ver o evento tornar-se esse tipo de espaço: uma sala onde a porta está verdadeiramente aberta e as ideias podem vir de todo o lado.