Artigos de opinião 30 Jul 2026

Performance sustentável: uma responsabilidade de todo o ecossistema do futebol

Performance sustentável: uma responsabilidade de todo o ecossistema do futebol

Na edição desta semana, contamos com um artigo exclusivo de João Lameiras, International Sport and Performance Psychologist. Com base na sua experiência em contextos de alto rendimento, o autor reflete sobre a importância de uma abordagem integrada à performance sustentável no futebol, defendendo que o sucesso a longo prazo depende não só da preparação técnica e física, mas também da liderança, da confiança e da responsabilidade partilhada por todo o ecossistema do futebol.

Quando se fala de pré-época, o discurso tende a concentrar-se na condição física, na composição dos plantéis e na implementação do modelo de jogo. Este é o período em que se definem rotinas, se testam soluções e se procura acelerar dinâmicas e a resposta coletiva. Mas é também nesta fase, longe dos holofotes, que se começam a construir (ou a comprometer) as condições humanas, relacionais e organizacionais determinantes para a sustentabilidade do rendimento desportivo ao longo da época.

É nesta fase que um jogador chega a um novo balneário sem saber ainda qual será o seu papel, que outro percebe que perdeu espaço ou estatuto; que um treinador tenta implementar ideias num tempo cada vez mais curto; e que uma direção toma decisões com impacto para além da próxima jornada. Contudo, no futebol, continuamos a olhar para a performance como uma responsabilidade exclusiva de quem entra em campo. Exige-se ao jogador que seja resiliente, confiante, emocionalmente estável, capaz de lidar com a crítica, com a incerteza e com a pressão de render em cada jogo disputado. Tudo isto é relevante, mas o problema surge quando esperamos que essas competências existam de forma independente do contexto em que o atleta trabalha.

O alto rendimento ensinou-me que nenhum jogador entra verdadeiramente sozinho em campo. Leva consigo a forma como foi liderado, o feedback que recebeu, o modo como o erro foi tratado e a confiança que sente nas pessoas à sua volta. Leva também preocupações pessoais, dúvidas sobre o futuro, expectativas familiares e a perceção de que pode, ou não, pedir ajuda sem que isso seja interpretado como fragilidade.

Por isso, recuso a separação artificial entre saúde mental e performance. Concentração, tomada de decisão, regulação emocional, confiança e qualidade das relações são dimensões da performance e, simultaneamente, da saúde. Quando um atleta deixa de dormir bem, joga condicionado pelo medo de errar ou sente que não consegue falar, não existe um problema “fora do futebol”. Não existe uma fronteira entre cuidar da pessoa e otimizar o profissional, estamos a falar dos mesmos processos.

Mas cuidar não significa reduzir exigência, normalizar o erro, evitar desconforto ou proteger os profissionais da pressão inerente à competição. Significa sim criar condições para que possam responder a essa pressão com maior consistência e sustentabilidade. Um contexto exigente pode ser mobilizador quando existe clareza, confiança e perceção de segurança psicológica. No entanto, a exigência sem critério pode tornar-se desgastante, degradar a decisão, a saúde e, inevitavelmente, a performance.

O mesmo se aplica aos treinadores, sujeitos a uma exposição permanente, a ciclos de avaliação cada vez mais curtos e à obrigação de decidir sob elevada pressão. Mas também aos dirigentes, cujas escolhas condicionam o ambiente, a estabilidade e a qualidade dos recursos disponíveis ao serviço do grupo.

É aqui que a visão sistémica se torna fundamental. Intervir não pode significar olhar apenas para o jogador quando surge um problema visível. Implica compreender a pessoa, o papel que desempenha, as relações que a envolvem e a organização que enquadra o seu trabalho. Para tal, a preparação psicológica deve ser articulada com o trabalho técnico, físico, médico e diretivo, respeitando competências, confidencialidade, fronteiras profissionais, em vez de a reservar para a crise. A abordagem deve ser preventiva e não remediativa.

Cuidar melhor é também coordenar melhor, não podendo depender da sensibilidade individual de um treinador, de um diretor ou de um profissional de saúde. São decisões frequentemente pouco visíveis, mas que serão sentidas quando chegar uma lesão, uma derrota, uma perda de estatuto ou uma sequência de resultados adversos. Trata-se de decisões estratégicas frequentemente silenciosas, contudo determinantes. É a robustez dessas decisões que ditará a capacidade de resposta da organização perante a adversidade. A atenção ao fator humano não reduz o rigor de uma organização desportiva, pelo contrário, otimiza a sua capacidade de gerir a própria exigência. A performance sustentável transcende a vitória imediata — reside na garantia contínua da capacidade de competir, evoluir e decidir com clareza. Esta responsabilidade não recai isoladamente sobre atletas, equipas técnicas ou equipas médicas, sendo antes partilhada por todo o ecossistema do futebol. E o seu alicerce edifica-se muito antes da competição oficial.

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