Os números contam a história, mas quem interpreta o jogo?
A análise de dados transformou a forma como o futebol é observado, preparado e decidido. Estatísticas, indicadores de desempenho e modelos de previsão permitem hoje identificar padrões e antecipar cenários com uma precisão que há poucos anos seria difícil imaginar. Mas será que tudo o que importa no jogo pode ser medido?
Este painel propõe uma reflexão sobre o equilíbrio entre a informação que os dados oferecem e aquilo que só a experiência, a leitura do contexto e a compreensão do jogo permitem perceber. Porque os dados podem revelar tendências, mas é preciso saber colocá-las em contexto, questioná-las e transformá-las em decisões.
Num futebol cada vez mais tecnológico, o desafio poderá não estar em escolher entre dados e conhecimento, mas em perceber como ambos podem trabalhar em conjunto.
O painel e o público começaram a ouvir uma história, passada em 1847, na capital austríaca, Viena, num hospital que tinha duas maternidades, uma gerida por médicos outro por parteiras. A sala gerida pelos médicos tinha 10 vezes mais mortalidade do que a que era gerida por parteiras. Um dos médicos analisou tudo e não descobriu a causa e depois começou a analisar o processo e introduziu uma pequena regra que era lavar as mãos depois das autópsias. Essencial, num momento em que não se falava de germes.
Talvez não seja preciso medir tudo, mas sim contextualizar e ver o que os dados mostram contra a nossa intuição.
Miguel Ferreira, analista do Sporting, foi o primeiro a desmistificar esta ciência nem sempre fácil.
“Não tomo decisões no clube, o nosso papel no clube é ajudar os que têm de tomar decisões, mediante os dados que conseguimos reunir, com o menor nível de risco possível”, simplificou o responsável leonino, recordando que a maior parte das vezes não tem todos os dados. Há dados por exemplo, de cada ação que o jogador teve, o tracking que sei onde estava cada jogador em campo, onde estavam os adversários, o árbitro, os colegas. Os jogadores jogam quase todos com o GPS nas constas ou o tracking que permitem monitorizar o rendimento”, exemplificou.
O que pedem os clubes a Raúl Peláez, que trabalha como consultor na área dos dados. “Não varia muito. Entendo o futebol é o mais maravilhoso do Mundo porque é o mais complexo, é um modalidade em que convivem a desordem, o azar, superioridade, inferioridade. Para analisar é essencial tracking para perceber como se desenrola o jogo, quanto mais entendemos, mais impacto podemos ter no impacto do jogador, no seu rendimento físico. Às vezes há jogadores que parecem que correm pouco, mas por vezes só entendem muito melhor o jogo e onde devem estar, enquanto outros mais novos correm muito porque são mais experientes”, exemplificou o espanhol.
“Hoje em dia o treinador nem sempre fala a mesma língua do analista de dados, por isso o analista de jogo é a chave. O vídeo é a melhor linguagem do treinador, melhor do que um quadro”, acrescentou.
Vignesh Jayanth, do AS Monaco, explicou que “medir dados não mudou muito”, mas o futebol sim. “É mais jovem, mais agressivo. Vejo os dados para apoiar as decisões do futebol, seja em campo seja no recrutamento. Tentamos compreender o treinador e o que pretende. Temos linhas de dados e decisões, temos um perfil muito claro para um jogador e tentamos traduzir isso dos dados. Os dados podem revelar muito mais rapidamente certos aspetos”, sustentou. “O futebol vai ser sempre incerto, e é por isso que adoramos. Podemos estar alinhados com os dados, mas há sempre uma incerteza. O scouting às vezes revela características de um jogador e os dados revelam outra coisa. Um jogador de 19/20 anos é o mais caro e se calhar não é a melhor solução. Devemos questionar a informação, usar também o instinto. Cada estilo precisa de dados diferentes”, acrescentou.
No caso das Seleções, em que os jogadores mudam de contexto, ou mudam de clube com companheiros diferentes. O investigador Rui Marcelino responde com ciência. “Os dados numa estrutura profissional são necessários. Mas agora queremos perceber quais os caminhos que queremos fazer. Vamos ler Edgar Morin, Paulo Freire que nos ensina a dificuldade de fazer as perguntas certas. Vejo muitas vezes dar respostas certas a perguntas erradas, na área dos dados. ‘Iludidos pelo acaso’ é um livro que recomendo. Quase todos os dados assentam em estatísticas de tendência central, a média, e ignoram os dado que saem dessa linha. Se não andarmos à procura dos números pelos números, ajudamos as pessoas a tomar melhores decisões”, explica.
“Temos indicadores, por exemplo, que são chamados de maneira diferente em modelos diferentes. É preciso fazer perguntas do jogo”, insistiu.
“Quando jogas de três em três dias há espaço para pouca coisa. Mas aí está a chave e os dados ganham utilidade. Internamente temos de estar todos aliados e isso transforma-se em futebol, quando percebemos, por exemplo, porque é que em determinado jogo levamos tantos contra-ataques”, acrescentou Miguel Ferreira. “O que nos distingue é a capacidade de entender as necessidades e não estar a falar de cebolas, quando estão preocupados é com batatas. Atuamos como tradutores entre dados e futebol. O treinador não tem de compreender, ele tem problemas e dores expressas em linguagem do futebol que temos de compreender e perguntar aos dados para lhes dar a resposta”, rematou o sportinguista.
Mas afinal, a que é que os dados respondem?
“Se não falamos com quem toma decisões, estamos a arriscar. Para que é que os clubes nos têm se depois não estamos na reunião técnica? Falem a mesma língua, que os dados respondem”, desafiou Rui Marcelino.