Artigos de opinião 15 Abr 2026

Quando o Futebol se Encontra com a Ciência

Quando o Futebol se Encontra com a Ciência

Artigo de opinião de José Gomes Mendes, Diretor Executivo da FPF Academy

Há momentos no futebol em que sentimos, com particular clareza, que o jogo está a evoluir para lá das quatro linhas. Não é apenas uma questão de intensidade, de velocidade ou de exigência física. É, sobretudo, uma questão de conhecimento.

Ao longo do meu percurso, contactando com diferentes realidades académicas, institucionais e de terreno, consolidou-se uma convicção: o futebol que cresce de forma sustentada é o que aprende continuamente, o que nos obriga a repensar o papel de todos os agentes do jogo. Hoje, a diferença entre quem ganha e quem perde constrói-se cada vez mais fora do momento competitivo, na forma como se produz, interpreta e aplica conhecimento. Não basta aceder à informação; é preciso transformá-la em decisão, comportamento e treino. Quem o faz prepara melhor, adapta-se mais depressa e compete com maior consistência; quem não o faz fica mais exposto ao erro e perde terreno.

É precisamente neste enquadramento que iniciativas de natureza científica e académica como o PFS Academy – Science in Football, que terá lugar nos dias 4 e 5 de maio, na Cidade do Futebol, ganham particular relevância. Mais do que um evento, representa um espaço onde esta interseção entre ciência e prática se concretiza, reunindo diferentes perspetivas e promovendo um diálogo que é, hoje, absolutamente essencial para a evolução do jogo, particularmente em áreas onde a inovação e a evidência científica começam a redefinir práticas estabelecidas.

Não se trata apenas de conferências. Trata-se de espaços onde se torna visível aquilo que, na maior parte do tempo, permanece no backoffice do jogo. O trabalho invisível que sustenta o rendimento ao mais alto nível, desenvolvido por quem, na ciência e na prática, está na linha da frente da evolução do futebol. São contextos onde diferentes linguagens se encontram e se tornam operacionais, aproximando o conhecimento da decisão e criando uma cultura de diálogo que nem sempre é evidente no quotidiano altamente competitivo do futebol profissional.

A experiência diz-nos que os contextos onde esta ponte entre academia e prática é efetivamente construída tendem a gerar vantagens competitivas mais sustentadas. É, aliás, essa a lógica subjacente a estruturas internacionais de referência na área da educação de treinadores, como o painel Jíra da UEFA, que integro e que ao longo das últimas décadas tem contribuído para elevar e harmonizar os padrões de qualificação no futebol europeu.

Há, no entanto, um ponto que considero essencial sublinhar: o conhecimento só tem verdadeiro impacto quando é apropriado. Quando deixa de ser algo que alguém produz para passar a ser algo que é partilhado e pode ser assim aplicado.

E isso não se constrói de forma isolada. Constrói-se em comunidade. Em redes de conhecimento. Em momentos de partilha estruturada, onde diferentes perspetivas se cruzam e se desafiam mutuamente.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de espaços que não apenas acompanhem essa evolução, mas que a liderem.

Espaços onde se discuta desempenho, mas também saúde. Onde se explore tecnologia, mas com sentido crítico. Onde se fale de dados, mas sem perder de vista o jogo. Onde a inovação não seja um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar o que realmente importa.

Num momento em que o futebol precisa cada vez mais destes espaços, o PFS Academy - Science in Football posiciona-se como um ponto de encontro raro entre quem estuda o jogo e quem o executa ao mais alto nível. Ao longo de dois dias, o programa desenhado pela equipa científica da FPF Academy, coordenado pelo Professor André Seabra, percorre desde a estrutura invisível das equipas de elite até às decisões mais finas no treino e competição, com temas como gestão de carga, análise de jogo, scouting moderno, nutrição, psicologia e reabilitação baseada em evidência. Mas mais do que os temas, é a densidade dos perfis que eleva o nível: especialistas ligados a organizações como FIFA, Liverpool FC, Tottenham ou SL Benfica cruzam-se com investigadores de referência e técnicos da FPF, garantindo uma abordagem que vai da teoria à aplicação real no terreno. Para quem trabalha no futebol e procura vantagem competitiva sustentada, este não é apenas mais um congresso, é uma oportunidade concreta de perceber como a ciência está a redefinir o jogo por dentro.

É precisamente neste tipo de ambientes que o futebol se reinventa, que se formam profissionais mais preparados, mais críticos e mais capazes de transformar conhecimento em ação. Contextos onde se aprende não apenas mais, mas melhor. E onde essa aprendizagem se traduz, de forma direta, na qualidade da decisão e na consistência do rendimento.

No futebol de alto nível, a diferença raramente está no que é visível. Está no trabalho que se constrói longe da exposição, na forma como se pensa o jogo, se prepara o detalhe e se reduz a incerteza. Não é apenas quem joga melhor que ganha. É quem se prepara melhor para jogar.

A investigação científica é hoje um dos pilares da FPF Academy, a par da formação não conferente de grau. Trabalhamos arduamente para que, no futuro próximo, seja erguido também o pilar da formação de nível universitário. O nosso desígnio resume-se em três palavras. Conhecimento. Transformação. Futebol.

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