Notícias 05 Mai 2026

Dia 2 da PFS Academy: Destaques do último dia da Conferência Científica

Dia 2 da PFS Academy: Destaques do último dia da Conferência Científica

Após um primeiro dia intenso de partilha de conhecimento na Cidade do Futebol, a PFS Academy – Science in Football regressa para o seu segundo e último dia, voltando a reunir especialistas nacionais e internacionais na FPF Arena Portugal. Dando continuidade ao forte impulso gerado na segunda-feira, a conferência entra na sua fase final com um enfoque ainda maior na inovação, na colaboração e no diálogo orientado para o futuro.

Integrado no ecossistema do Portugal Football Summit, o evento reforça a sua posição como um ponto de encontro de referência para a comunidade global do futebol, onde ciência, performance e tecnologia se cruzam. Sob o tema “The Team Behind the Team: Science, Training and Performance”, os debates continuam a aprofundar o papel determinante de uma abordagem multidisciplinar na construção do presente e do futuro do jogo, destacando metodologias inovadoras e boas práticas que estão a redefinir os contextos de alto rendimento no futebol.

Para rever os principais momentos e destaques do Dia 1, CLIQUE AQUI.

Conferência 9 | Gestão de Equipas Multidisciplinares no Futebol de Elite

Pedro Marques (Liverpool FC)

Pedro Marques refletiu sobre a gestão de equipas multidisciplinares no futebol de elite, destacando que o desafio atual já não passa apenas por reunir especialistas, mas por garantir que estes trabalham de forma integrada. Defendeu a passagem de uma lógica multidisciplinar para uma abordagem mais interdisciplinar, onde a informação produzida por diferentes áreas se traduz em decisões partilhadas e orientadas para o rendimento. Como referiu, o objetivo não é “estar certo”, mas sim “estar certo da direção certa”.

Ao longo da intervenção, sublinhou a importância de modelos de performance partilhados, clareza de papéis, comunicação estruturada e segurança psicológica associada a responsabilidade. A partir da experiência em diferentes contextos e culturas, reforçou que processos bem definidos, linguagem comum e pontos regulares de alinhamento são fundamentais para reduzir fricção, acelerar decisões e garantir impacto no jogador e na equipa. Em síntese, a eficácia destas estruturas depende da capacidade de ligar pessoas, processos e ferramentas em torno de um propósito comum.

Conferência 10 | Bolas Paradas no Futebol Internacional: Uma Abordagem Conceptual

André Reis (FPF)

André Reis apresentou a abordagem conceptual da Seleção Nacional às bolas paradas, destacando a crescente importância deste momento do jogo no futebol internacional. Sublinhou o papel do especialista como elemento central para aumentar competência, detalhe e envolvimento dos jogadores, referindo que “a voz especializada é um multiplicador de competência e compromisso”. A sua intervenção evidenciou ainda o impacto da tecnologia, usada para aproximar ação e correção, acelerar a aprendizagem e tornar o feedback mais objetivo e imediato.

Ao longo da apresentação, reforçou que o trabalho de bolas paradas deve estar integrado no treino e não surgir como um bloco isolado. Destacou a importância de criar uma cultura específica, valorizando conceitos acima de padrões fixos, a preparação para segundas bolas e a resposta ao caos competitivo. Em síntese, defendeu uma abordagem em que clareza, envolvimento, tecnologia e princípios comportamentais permitem transformar as bolas paradas numa parte central da identidade e da performance da equipa.

Conferência 11 | Alimentação e Nutrição em Torno do Exercício: O que comer antes, durante e após o treino e a competição

Mónica Sousa (Sporting Clube de Portugal)

No painel científico sobre “Food and Nutrition Around Exercise: What to eat before, during and after training and competition”, Mónica Sousa apresentou orientações práticas sobre como as estratégias nutricionais podem apoiar o desempenho e a recuperação no futebol. Destacou o papel central dos hidratos de carbono, especialmente nos dias que antecedem a competição, em que a ingestão deve ser aumentada para otimizar as reservas de glicogénio muscular e atrasar a fadiga. No dia de jogo, a refeição pré competitiva assume um papel fundamental para garantir disponibilidade energética, hidratação e conforto dos atletas, privilegiando alimentos de fácil digestão, ricos em hidratos de carbono e ajustados às preferências individuais.

Sublinhou ainda a importância de manter a ingestão de hidratos de carbono durante o jogo, apesar das limitações práticas, e de priorizar a recuperação imediatamente após a competição através da combinação de hidratos de carbono, proteína e hidratação adequada. Mónica Sousa reforçou uma abordagem baseada em alimentos sempre que possível, valorizando os benefícios nutricionais dos alimentos integrais, sem descurar o papel estratégico dos suplementos em contextos específicos. Em síntese, destacou que o planeamento nutricional deve ser individualizado, prático e alinhado com as exigências do jogo, de forma a potenciar o rendimento e a recuperação.

Conferência 12 | Psicologia do Desporto: uma jornada da saúde ao desempenho

Nádia Tavares (FPF)

Nesta apresentação, Nádia Tavares aborda a psicologia do desporto como um percurso contínuo desde a saúde mental até ao rendimento, desafiando a ideia comum de que saúde mental é sinónimo de perturbação mental. Define a saúde mental como um estado de bem estar que permite lidar com o stress, reconhecer capacidades, desempenhar de forma eficaz e contribuir para os outros. Destaca que a saúde mental não é um conceito binário, mas sim um espectro, e que os fatores psicológicos estão sempre interligados com o desempenho físico, técnico e tático. Através de modelos conceptuais, explica que as reações dos atletas não dependem apenas dos acontecimentos externos, mas também de processos internos como perceção, pensamentos, emoções e comportamentos, todos eles passíveis de treino e desenvolvimento.

A oradora defende que a psicologia do desporto deve ser integrada de forma sistemática no treino diário, tal como as restantes dimensões do rendimento. Apresenta exemplos práticos de intervenção, incluindo avaliações psicológicas, sessões individuais e de grupo, e trabalho específico em competências como regulação emocional, foco e liderança. No entanto, identifica obstáculos à sua implementação, como mitos no contexto desportivo, pouca integração dos psicólogos nas equipas e a necessidade de os próprios profissionais se adaptarem melhor aos contextos de alto rendimento. Conclui que a psicologia do desporto deve ser encarada como uma componente essencial e contínua no desenvolvimento do atleta, exigindo treino estruturado, colaboração e especialização para impactar verdadeiramente a saúde e o rendimento.

Conferência 13 | A ciência: amiga ou inimiga do médico de equipa?

Rita Tomás (FPF)



Rita Tomás refletiu sobre o papel da ciência na prática do médico de equipa, questionando se esta é um aliado ou um obstáculo no contexto do futebol de elite. Partindo da sua experiência clínica, destacou que a formação médica está profundamente enraizada em evidência científica, mas alertou para as limitações dessa mesma evidência, sublinhando que “não existe uma solução única para todos”. Através de exemplos de estudos clássicos, evidenciou a necessidade de interpretar criticamente os dados e adaptá-los ao contexto específico de cada atleta, reconhecendo a complexidade das lesões e dos processos de retorno à competição.

Ao longo da intervenção, reforçou que a prática clínica vai além da ciência, integrando também a dimensão humana da medicina. Destacou a importância da empatia, comunicação e relação com o atleta, defendendo que o equilíbrio entre evidência científica e sensibilidade clínica é essencial para uma intervenção eficaz. Num cenário marcado por inovação constante e crescente volume de informação, alertou para desafios éticos e para a necessidade de manter o foco no atleta como indivíduo único. Em síntese, concluiu que a excelência na medicina desportiva reside na capacidade de conjugar ciência e arte, lembrando que “o bom médico trata a lesão, mas o grande médico trata o atleta que tem a lesão”.

Conferência 14 | Reabilitação Baseada na Evidência: uma abordagem multidisciplinar no futebol de elite

Nuno Tiago (FPF)

Nesta apresentação, Nuno Tiago aborda a reabilitação no futebol de elite como um processo colaborativo e orientado pela evidência, e não como algo baseado em protocolos rígidos. Destaca que uma lesão não é apenas um problema médico, pois tem impacto no rendimento, nas questões financeiras e no estado psicológico do atleta. Tendo em conta a frequência e complexidade das lesões musculares, reforça a importância de envolver diferentes especialistas, como médicos, fisioterapeutas, treinadores e cientistas do desporto. Sublinha ainda que a biologia tem o seu próprio ritmo, pelo que, apesar de ser possível acelerar alguns aspetos da recuperação, o processo de cicatrização deve ser respeitado. Um dos conceitos centrais é o de avaliação de prontidão, que funciona como a ponte entre a lesão e um regresso seguro à competição, através de uma monitorização contínua.

O orador descreve depois uma progressão clara na reabilitação, começando pela gestão da dor e introdução de cargas leves, passando pelo desenvolvimento de força, com especial foco no trabalho excêntrico, e evoluindo para a corrida e ações de alta intensidade. Nas fases iniciais, o foco deve estar na qualidade do movimento e não na quantidade, ao mesmo tempo que se constrói confiança no atleta e na equipa técnica. À medida que o jogador evolui, a responsabilidade passa mais para os cientistas do desporto e treinadores físicos, sobretudo nas fases finais, onde o treino já se aproxima das exigências do jogo. A decisão de regresso à competição deve ter em conta vários fatores, como a condição física, o desempenho funcional, a simetria e a confiança do próprio jogador. No final, defende que uma boa reabilitação resulta da combinação entre evidência científica, experiência clínica e compreensão do contexto, permitindo decisões mais seguras e informadas.

Conferência 15 | Análise no Futebol com IA Generativa: dos dados de tracking às variáveis significativas

Daniel Carrilho (University of Lisbon)

Daniel Carrilho refletiu sobre o papel da inteligência artificial generativa na análise do futebol, defendendo que o verdadeiro desafio não está na quantidade de dados, mas na sua interpretação. Através da analogia entre “breaking news” e jornais, destacou que dados isolados e desconectados dificultam a compreensão do jogo, enquanto a análise deve “contar uma história” coerente. Como referiu, “uma variável só tem significado em relação ao jogo”, reforçando a ideia de que os dados só ganham valor quando ligados ao contexto, aos princípios e à forma de jogar da equipa.

Ao longo da apresentação, sublinhou que o ponto de partida para dar sentido aos dados deve ser o próprio jogo, nomeadamente as relações entre jogadores, bola e espaço, derivadas dos princípios de jogo. Demonstrou como essas relações podem gerar variáveis mais significativas e como a IA pode ser utilizada não para substituir o analista, mas para sintetizar informação e apoiar a tomada de decisão. Em síntese, defendeu que a eficácia da análise depende da capacidade de articular conhecimento do jogo com tecnologia, usando a IA como ferramenta para transformar dados em entendimento útil para treinadores e equipas.

Conferência 16 | Decifrar os Estilos de Jogo no Futebol de Elite: Perspetivas Práticas para Treinadores

Javier Fernández Navarro (Manchester Metropolitan University)

Javier Fernández Navarro começa por clarificar conceitos frequentemente confundidos no futebol, como “posição”, “princípios” e “estilos de jogo”, destacando a importância de uma linguagem comum entre treinadores. Explica que os estilos de jogo são padrões comportamentais observáveis das equipas, utilizados para atingir objetivos específicos nos diferentes momentos do jogo, como a organização ofensiva, as transições ou a fase defensiva. Apresenta exemplos como jogo direto, jogo apoiado, contra-pressão ou bloco baixo, sublinhando que estes estilos estão interligados e dependem do contexto. Através de dados e análise estatística, demonstra como é possível identificar e classificar estilos com base em variáveis como a direção dos passes, a largura da equipa ou as zonas do terreno, permitindo mapear e comparar equipas de forma objetiva.

Numa perspetiva prática, Javier Fernández Navarro mostra como esta análise pode apoiar os treinadores em várias áreas: compreender a identidade da equipa, analisar adversários, ajustar estratégias em função do contexto do jogo e orientar o treino e o recrutamento. Defende que os dados devem complementar a análise de vídeo e o conhecimento do treinador, ajudando a identificar comportamentos consistentes, aqueles que surgem sob pressão e os aspetos a melhorar. Destaca ainda a importância de alinhar o perfil dos jogadores com o modelo de jogo pretendido, bem como de avaliar a eficácia dos estilos utilizados. Conclui que a quantificação dos estilos de jogo constitui uma ferramenta valiosa para a tomada de decisão, desde o planeamento tático até à seleção de jogadores.

Guy Sauce premiado pela melhor apresentação

Durante os dois dias da PFS Academy – Science in Football foram apresentadas 57 comunicações livres, distribuídas por cinco espaços onde investigadores partilharam estudos que estão agora disponíveis na revista científica digital da conferência. “Greater Hip Adductor Strength Gains With Static vs Dynamic Exercise in Male Footballers – An Ecological Randomized Controlled Trial”, de Guy Sauce, do Departamento de Otimização de Rendimento do Sport Clube Beira-Mar, foi distinguido pela organização como a melhor apresentação.

Notícias Semelhantes